A praça e o primeiro governador republicano da Paraíba e outras histórias


A praça e o primeiro governador republicano da Paraíba

27 dez. 2025

Pavilhão do Chá.
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Não me canso de admirar o belo Pavilhão do Chá (na foto), lamentando seu abandono como equipamento comunitário; embora, pelo que andam dizendo, próximo de novas ações do poder público visando seu reaproveitamento. Ele fica na Praça Venâncio Neiva.

A história de Venâncio Neiva, figura que nomeia a praça, necessita de um breve preambulo. Em 15 de novembro de 1889, os militares derrubaram o gabinete do Visconde de Ouro Preto, destituíram Dom Pedro II de suas funções monárquicas, mandaram a família real para o exílio na Europa, e proclamaram a República.

Comandante de maior expressão no movimento, assumiu a presidência o general alagoano Deodoro da Fonseca, tendo como vice o conterrâneo Floriano Peixoto. Então, foi convocada a Constituinte que elaborou a primeira Constituição republicana, a de 1891, e ajustou, constitucionalmente, as funções da dupla.

Na sequência, insatisfeito com as disputas institucionais subsequentes, incluídas as da economia, por conta de um excesso de crédito no mercado, Deodoro promoveu um golpe dentro do golpe. Foi quando dissolveu o Congresso iniciando carreira solo, como pretendente a ditador.

Contudo, não teve vida fácil, já que houve bastante resistência à sua pretensão, tanto no campo civil quanto no militar, que terminou produzindo a sua (de Deodoro), queda, em 23 de novembro de 1891. No lugar, assumiu o vice-presidente Floriano Peixoto, que promoveu mudanças políticas em todo o país.

Postas essas preliminares, chegamos à Paraíba de novembro de 1891, onde governava o magistrado Venâncio Neiva, alçado ao cargo, logo depois de instalada a República, pela força de seu irmão, o general Tude Neiva, e de outro colega de posto, o general Almeida Barreto. Ambos, paraibanos, heróis da Guerra do Paraguai e de forte prestígio nas Forças empoderadas.

Em 27 de novembro de 1891, entretanto, no bojo das mudanças nacionais descritas no texto, Venâncio Neiva foi substituído por uma junta governativa. Insatisfeito, e para não sair por baixo, ensaiou resistência. Findou tirando uma licença sem vencimentos de 90 dias, se mandando da Paraíba no rumo da capital da República. Acabara o seu governo. Tempos depois, teve a praça com seu nome. Afinal, o primeiro governador republicano da Paraíba.


João Pessoa em movimento, neste sábado, 27


O sábado em João Pessoa chega leve, entre o balanço do samba e o clima de férias. Ao meio-dia, o Sabadinho Bom ocupa a Praça Rio Branco, no Centro Histórico (12h30), abrindo o dia com música ao ar livre. À tarde e à noite, o Natal da Usina movimenta a Usina Cultural Energisa, na Rua João Bernardo de Albuquerque, 243, em Tambiá (16h às 22h), reunindo famílias e visitantes. Para quem prefere cinema, o Cine Bangüê mantém sessões às (15h), (17h) e (19h), no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, Avenida Abdias Gomes de Almeida, 800. Os passeios pela memória seguem no Centro Cultural São Francisco (9h às 17h), no Museu de História da Paraíba (entradas às 9h, 11h, 13h e 15h) e na Estação Cabo Branco (10h às 18h). Pela orla, o MAP – Mercado de Artesanato Paraibano (9h às 19h) e a Feirinha de Tambaú (9h às 22h) completam o roteiro com artesanato, sabores e o clima do verão pessoense.

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A Organização das Voluntárias

28 dez. 2025

Última foto da Organização das Voluntárias, feita pelo autor, apresenta a atual situação do prédio, naturalmente ocupado por famílias carentes também necessitadas de atenção.
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Em novembro de 1958, dentro da programação Natal dos Pobres, três artistas de primeira grandeza da música popular brasileira se apresentaram aos pessoenses num concorrido Jantar Dançante: Agostinho dos Santos, Ângela Maria e Ivon Cury.

A festa aconteceu em um ambiente social, então de bastante prestígio, de nome Organização das Voluntárias, com endereço na sempre bela Avenida João Machado, o boulevard pessoense, via que mudou a configuração e o panorama urbano da cidade de João Pessoa.

Para registro histórico, a entidade fora fundada em 1953, pela primeira-dama Alice de Almeida, esposa do governador José Américo de Almeida (na época, licenciado ocupando o cargo de ministro da Viação). O organismo visava arregimentar voluntariado para ações sociais em favor dos pobres.

Durante algumas décadas, a Organização das Voluntárias reuniu, destacadamente, mulheres, para atendimento aos oficialmente excluídos do alcance institucional. Lá, então, era onde se reuniam e se organizavam as iniciativas sociais.

Por conta de sua localização, pelo menos enquanto durou o prestígio do Centro de João Pessoa, enquanto local de moradia, a Organização das Voluntárias também serviu como local de festas, no modelo daquela de novembro de 1958, atraindo, conforme o ritmo, tanto a juventude quanto os adultos, já pais de famílias.

Entre outros tipos de eventos sediados pelas Voluntárias, como ficou mais popularmente conhecido o local, havia festas de formaturas que atendiam todas as faixas escolares. Mas também reuniões cívicas ou educacionais envolvendo debates e premiações.

Não creio que seja possível reviver a Organização das Voluntárias com a mesma finalidade original. O que acho, e muita gente acha, também, é que um equipamento guardião de parte da memória social-urbana de João Pessoa não pode continuar condenado ao abandono, como atualmente se encontra.


João Pessoa em movimento, neste domingo, 28

Pela manhã, missas da Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves e nas igrejas dos bairros. À tarde, o Natal da Usina, na Usina Cultural Energisa (16h às 22h).. No fim do dia, a Banda 5 de Agosto anima o Busto de Tamandaré (18h). Para quem prefere cinema, o Cine Bangüê mantém sessões às (15h), (17h) e (19h), no Espaço Cultural. Os passeios pela memória seguem no Centro Cultural São Francisco (9h às 15h), no Museu de História da Paraíba (9h, 11h, 13h e 15h) e na Estação Cabo Branco (10h às 18h). Na orla, o Mercado de Artesanato Paraibano e a Feirinha de Tambaú completam o dia.

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Leis que fortalecem identidades culturais

29 dez. 2025

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Não é rigorosamente obrigatório que o fato esteja distante demais no tempo para que mereça uma atenção memorialista. Por vezes, sua importância acaba por exigir oportunas e necessárias lembranças, até para que não padeçam de indesejáveis esquecimentos.

Há quatro anos, por exemplo, o governador João Azevedo sancionou duas leis de fortes compromissos culturais, no terreno da ancestralidade. Falo das leis 12.184 e 12.185, sancionadas em 29 de dezembro de 2021. Elas afirmam que certas heranças não são enfeite de calendário. São história, identidade e direito de presença.

A Lei 12.184 reconhece como patrimônio cultural imaterial o ofício de mestre de capoeira. Isso protege uma tradição de matriz africana que é escola de corpo, canto e comunidade. Ao reconhecer o mestre, a lei reconhece também a roda e a transmissão, aquilo que passa de geração em geração no olho, no ritmo e no respeito.

A Lei 12.185 reconhece como patrimônio a Festa de Iemanjá, celebrada em 8 de dezembro em João Pessoa, e prevê ações de fomento. Quando o Estado registra essa celebração, ele ajuda a diminuir silêncios antigos e a enfrentar o preconceito que ainda tenta empurrar essas tradições para a margem. A cidade fica mais inteira quando admite, sem rodeios, as muitas origens que a formam.

Com especial significado para uma cidade antiga, formada nos avanços e retrocessos da construção da nacionalidade, onde o poder público não pode tratar a diversidade como detalhe. Diferentemente disso, é preciso estimular, com políticas e respeito, a pluralidade de etnias e de culturas que nos fizeram povo, sobretudo a presença negra e indígena, tantas vezes apagada ou reduzida ao rodapé da história.

Quando o Estado reconhece e fomenta essas tradições, ele ajuda a cidade a não alimentar vergonha de suas origens e nem medo de enfrentar tentativas de apagamentos.


João Pessoa em movimento, nesta segunda, 29.

Nesta segunda, 29, à tarde, tem o Natal da Usina, na Usina Cultural Energisa, No Centro Histórico, o samba ocupa a noite com o Sanhauá Samba Clube. Para os cinéfilos, o Cine Bangüê mantém sessões às (16h), (18h) e (20h). Os passeios pela história seguem no Museu de História da Paraíba, no Centro Cultural São Fr e na Estação Cabo Branco (9h às 18h). Na orla, o Mercado de Artesanato Paraibano e a Feirinha de Tambaú adornam o dia.

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Os serviços de saneamento em João Pessoa e a Cagepa

30 dez. 2025

Crédito da foto: Governo da Paraíba.

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Uma das razões que fizeram os colonizadores adotarem o sítio em que foi construída a atual cidade de João Pessoa foi a abundância de água potável, como se sabe, elemento sem o qual inexiste vida.

Observadas as boas condições de defesa existentes no local, as descrições dos nativos, confirmadas pelos exploradores iniciais, apontavam bom número de fontes de onde jorrava água naturalmente pura.

As primeiras nascentes utilizadas, segundo linha de tempo montada pela Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), foram a Bica dos Milagres, Bica do Tambiá, Cacimba do Povo, Bica de Maria Feia, Cacimba de Dr. Cícero e Cacimba de Maroca Estrela.

Entre os anos de 1585 e 1912, a água tinha de ser usada ou colhida em recipientes apropriados, diretamente nos locais, e carregados nos ombros ou por tração animal até o local de consumo. Foi desse jeito que o abastecimento d’água aconteceu na velha cidade da Parahyba, atual João Pessoa, no período citado.

Em 1912, aí sim, houve a inauguração do primeiro sistema de água encanada, a partir do Manancial do Buraquinho, no atual Jardim Botânico Benjamin Maranhão. O modelo de encanação da água da cidade, em sua primeiríssima fase, foi autoria do governo João Machado (1908-1012).

Portanto, mais de 300 anos depois de fundada a Cidade Real de Nossa Senhora das Neves é que a água potável chegou às torneiras de, inicialmente, algumas casas. As redes de esgotamento sanitário ainda tiveram de aguardar até a década de 1920.

Dessa forma, em 1926, já no governo João Suassuna (1924-1928) é que foi criada a Repartição de Saneamento do Estado (RSE). No entanto, apenas em 30 de dezembro de 1966, no governo João Agripino (1966-1971), foi criada a Cagepa, uma sociedade de economia mista que até hoje comanda o saneamento paraibano. Então, os serviços de água e esgotos já atendiam grande parte das cidades do estado.

Este, o registro de hoje.


𝗝𝗼𝗮̃𝗼 𝗣𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮 𝗲𝗺 𝗺𝗼𝘃𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼, 𝗻𝗲𝘀𝘁𝗮 𝘁𝗲𝗿𝗰̧𝗮-𝗳𝗲𝗶𝗿𝗮, 𝟯𝟬

Nesta terça-feira, 30, tem o II Festival Internacional de Arte Naif, que ocorre no Hotel Globo (08h às 17h). Além disso, a Exposição Versos Parahybridos segue aberta ao público no Centro Cultural São Francisco (09h às 16h). No final da tarde, a comunidade religiosa pode acompanhar a Missa em Honra a São Jerônimo, celebrada na Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves (17h). Por fim, os interessados em literatura encontram a Feira de Livros e Autores Paraibanos instalada na Praça Antenor Navarro (14h às 19h).

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O direito à memória

31 dez. 2025

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Num ambiente de tocante afetividade e destacada presença intelectual, a historiadora Lúcia de Fátima Guerra Ferreira lançou, nesta terça-feira, 30, na Fundação Casa de José Américo, a obra Memória e Verdade Sobre a Ditadura, com o expressivo subtítulo Raspando as Cores Para o Mofo Aparecer.

O livro inclui contributos importantes ao trabalho de Lúcia Guerra, a exemplo do marido Carmélio Reynaldo Ferreira e dos pesquisadores Waldir Porfírio da Silva, Maria de Nazaré Tavares Zenaide, Ana Paula Ferreira de Brito e Shara Raquel Silva Dutra de Medeiros.

Finda a parte de apresentação do livro, com as falas do presidente da FCJA, Fernando Moura, e da própria autora, o público assistiu a um breve filme em que era lembrada a figura de Afrânio Montenegro Guerra.

Pai da autora, Afrânio foi um baluarte na implantação do sistema de créditos e na aplicação do processamento computacional das matrículas na UFPB. Virou figura imprescindível quando se trata de escrever a história da instituição a partir dos anos 1970.

Encerradas as apresentações do livro e exibido o filme, uma surpresa ainda esperava a todos: o aniversário de Lúcia, com direito a bolo e parabéns. Depois, naturalmente, a sessão de autógrafos.

Ao autografar o meu exemplar, a autora escreveu o seguinte: “espero que este livro contribua nas suas pesquisas”. Assim motivado, ontem mesmo comecei a procurar ganchos para minhas crônicas diárias.

Não cheguei a ler o livro, porque não deu tempo ainda, mas passei uma larga vista sobre o seu conteúdo. De cara, encontrei dois daqueles ganchos que procurava, no capítulo sobre a ditadura na Paraíba: a Casa Margarida Maria Alves (2001), em Alagoa Grande, e o Memorial das Ligas e Lutas Camponesas (2006), em Sapé. Ações públicas ligadas ao inalienável direito dos povos à memória. Mas outros certamente existem.

Assim, nos dias 1 e 2 de janeiro de 2026, mais conhecidos como amanhã e depois de amanhã, escreverei sobre essas duas ações memoriais paraibanas, devidamente lembradas no livro, uma obra necessária a quem busca entender a história do país e, sobretudo, da Paraíba.


Museu Casa de Margarida Maria Alves

01 jan. 2026

Entre os temas tratados pelo livro Memória e Verdade sobre a Ditadura, da historiadora, professora e pesquisadora Lúcia Guerra, se destaca a do direito ao não esquecimento, que visa guardar para a posteridade experiências marcantes numa determinada sociedade.

Nesse particular, merecem destaque os terríveis resultados das ações repressivas empreendidas pelo Estado brasileiro após o Golpe de 1964, como parte da política de aniquilamento da oposição ao regime.

Foi em meio ao estabelecimento de instrumentos de investigação sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, em 1995, já com o país redemocratizado desde 1988, da Comissão da Anistia, em 2001, e da Comissão Nacional da Verdade, em 2011, que a tese do direito à memória passou a ganhar escala, no Brasil.

Na Paraíba, a partir do trabalho da Comissão da Verdade ficaram entendidas como ações repressivas mais notáveis os assassinatos de Alfredo Nascimento e João Pedro Teixeira, em 1962, antes mesmo da instalação da ditadura, e os desaparecimentos de João Alfredo Dias e Pedro Inácio de Araújo, em 1964. Vale dizer, o conjunto dos acontecimentos relacionados com a atuação das Ligas Camponesas. E já em 1983, o assassinato da sindicalista Margarida Maria Alves.

A primeira providência memorial, datada de 2001, celebrou Margarida, com a criação, em Alagoa Grande, sua terra natal, do Museu Casa de Margarida Maria Alves. Foi ali que a homenageada viveu na condição de presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais.

O ato memorialista teve ao mesmo tempo escopos político e pedagógico. Político, porque cravou no centro urbano alagoa-grandense o marco material pretendido contra o esquecimento e a impunidade. Pedagógico, porque a casa-museu virou sala de aula para a cidade, um ponto onde é possível encontrar lembranças que ajudam a entender a luta por direitos no meio rural e o papel das mulheres nessa história.

No livro da professora Lúcia Guerra toda essa conjuntura é devidamente esmiunçada. Minhas crônicas memorialistas têm limite nos exíguos espaços para textos, nas redes sociais, e da pressa que têm as pessoas que nelas transitam.


PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS 〰️

Sobre o autor

Sergio Botelho é jornalista e escritor, membro da União Brasileira de Escritores. Iniciou sua carreira no final dos anos 1970, na redação do jornal O Norte. Atuou no jornalismo diário em diversos meios de comunicação paraibanos, seja como editor, colunista político ou âncora. Desempenhou atividades enquanto assessor de imprensa em instituições renomadas como a Universidade Federal da Paraíba e o Ministério Público de Rondônia.  Publicou os livros “Memórias da Cidade de João Pessoa” (2024), e “João Pessoa, uma viagem sentimental” (2025).

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