Milagres que vivi 1 A paulista e o anel africano

Coluna semanal de Paloma Jorge Amado


Tocou a campainha na rua Alagoinhas. Beatriz Costa, a atriz portuguesa que era nossa hóspede, atendeu a porta, estava sozinha em casa. A senhora paulista procurava por Jorge Amado, precisava que ele lhe indicasse onde estava seu anel. Que coisa mais doida essa, pensou Beatrizinha. Me explique melhor, minha senhora. A paulista estava nervosa demais para relatar a história com alguma coerência. Cheguei de São Paulo há uma semana, já volto amanhã, só hoje soube quem era o intelectual importante, preciso saber do anel... Desesperada com a notícia de que ele não estava e só voltaria muito mais tarde, despediu-se de Beatriz com um Eu sou mesmo azarada, minha vida não tem solução, e foi embora.

Soubemos da história dela depois. Com a vida toda atrapalhada, sem dinheiro e problemas familiares, a costureira da periferia de São Paulo tentara de tudo, acabou numa sessão de Umbanda, religião de sua vizinha. No terreiro, logo baixou uma Pomba-Gira que a abraçou e disse para ir imediatamente a Salvador, procurar ali o intelectual mais importante, que ele lhe diria onde encontrar um anel africano que iria abrir seus caminhos, clarear seu tempo. Ela, mesmo sem acreditar muito, vendeu o que ainda restava, inclusive sua máquina de costura – o ganha-pão – comprou uma passagem de ônibus para a Bahia, alugou quarto numa pensão em São Bento. Voltaria em uma semana, o dinheiro não dava para mais que isso. Nesse meio tempo teria de descobrir quem era esse tal de intelectual, falar com ele, descobrir o paradeiro do anel e tomar posse do seu amuleto. Era uma prebenda difícil.

Naquele mesmo dia, depois de levar cinco para descobrir que o tal intelectual podia ser Jorge Amado, descobrir seu endereço, ir até lá e ele não estar, perdera completamente as esperanças. Voltou para a pensão, onde os hóspedes, amigos recentes condoídos com sua situação, esperavam ansiosos. E aí? Nada, minha vida é mesmo um desastre. Estavam formando um grupo para ir naquela noite ao Axé do Opô Afonjá assistir à festa de Oxóssi. Tanto fizeram que a convenceram a ir também, cerimônia linda, não vá desperdiçar sua última noite em Salvador.

Ao desembarcar no terreiro, a primeira pessoa que o grupo avistou foi papai. Olha ali o Jorge Amado! Ele é Obá de Xangô e filho de Oxóssi! Só podia estar aqui. A paulista não perdeu um só segundo, partiu para ele. Beatriz viu a cena e disse para papai ser aquela a senhora que estivera em casa. Jorge Amado, cadê o meu anel africano? Ela perguntou na tampa, sem dizer boa noite. Assim como a pergunta, a resposta veio direta: Pergunte a Camafeu de Oxóssi, que está passando aí ao seu lado. Ele sabe. Ela partiu célere: Camafeu, cadê o meu anel africano? Ela perguntou já puxando da bolsa um desenho que a Pomba-Gira fizera. Camafa olhou o desenho. Está comigo! Recebi uma partida de anéis da África nessa semana e guardei ele para mim. A mulher desabou, amparada pelo grupo de amigos. Combinaram a ida dela ao Mercado Modelo na manhã seguinte, quando Camafeu, que tinha ali uma barraca de produtos de candomblé, lhe daria a solução de sua vida.

Nunca mais soubemos dela. Quando penso no assunto, imagino que seus problemas se resolveram, ela saiu vitoriosa. Também nunca soube porque papai indicou Camafeu, sem fazer nenhuma pergunta à senhora, nem conhecer sua história. Anel africano, minha filha, é com Camafeu... E ele estava passando do lado bem naquela hora. Arrematava: Milagres do povo da Bahia.


Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

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